Conto: Na fila do supermercado

Crédito da ilustração: Clarissa Pacheco

Letícia estava na fila do supermercado, cansada depois de um dia inteiro de trabalho. Só conseguia pensar em sair dali correndo, largar todas as compras e ir pra casa tomar um banho e dormir. O local estava lotado, pensou até fingir uma gravidez – as gordurinhas ajudariam – e pegar a fila preferencial. Depois pedia perdão a Deus. Desistiu, com receio de ele não a perdoar. Rodara todos os caixas, para ver se acharia uma fila menor. Nada.

O humor não era dos melhores. Já estava há duas noites sem dormir direito, efeito das mudanças de horário dos plantões. Mentalmente, xingava a quinta geração de quem inventara as filas de supermercados e a sexta geração de quem inventara trabalho na madrugada. O rosto não escondia a raiva de estar ali: testas frisadas, olhos semicerrados e um bico de assustar qualquer um.

Impaciente e descuidada, ansiosa por chegar logo ao caixa e se livrar da tarefa, Letícia empurrou o carrinho de compras além do que deveria. Por pouco não atropela o pé do rapaz que estava à sua frente, conversando com um amigo. Constrangida e sem jeito, deixou o sorriso se abrir para pedir desculpas.

“Você tem um sorriso lindo. Um dos sorrisos mais lindos que já vi na minha vida”, foi a resposta do rapaz. Letícia voltou a sorrir, desta vez um pouco sem graça pelo inesperado elogio, e agradeceu a gentileza. O rapaz descarregou suas compras no caixa e após pagar a conta, disparou: “Você deveria sorrir sempre, andar sorrindo. Seu sorriso é capaz de fazer alguém feliz”.

Desta vez é ele quem sorri, e ao virar para ir embora, ouve de Letícia: “E você deveria elogiar sempre. Seu elogio é capaz de fazer alguém feliz”. Ambos sorriram, o rapaz seguiu seu rumo, e Letícia continuou descarregando suas compras, mas agora com um leve sorriso no rosto.

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Sobre Alane Virgínia

Apaixonada por livros, letras, sons, imagens e pessoas. Advogada por vocação e jornalista nas horas vagas.
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11 respostas para Conto: Na fila do supermercado

  1. eufacoafesta disse:

    Adorei o conto e a forma como foi escrito! Parabéns pelo blog, estava passeando sem rumo mas definitivamente ele me prendeu a atenção.

    Bjos,
    Flávia

  2. Que bacana, Flávia, é tão bom quando a gente recebe comentários assim. Fiquei feliz mesmo. Volte sempre e sinta-se em casa. Beijo grande!

  3. Talita Sousa disse:

    Gostei….

  4. Bene Menezes disse:

    Alane, este conto é de uma sutileza sem igual. Eu me vejo dentro dele…Rsrsrsr! Impressionante, como eu me identifico com as personagens!
    Hey…Sinto falta de ver mais textos novos! Ultimamente, não tenho recebido novidades.
    Continue escrevendo!
    Bjs.
    BENE-SP

  5. Oh, Bene. Obrigada. Você sempre muito gentil com as palavras… Estou realmente em uma fase muito corrida… Mas em breve retomo o ritmo normal de postagens, pode deixar. Beijo grande!

  6. Bene Menezes disse:

    Ok, ficarei no aguardo por novidades.
    Beijo grande!
    BENE-SP

  7. Lúcia Helena disse:

    Adorei! Como seu amigo disse, também me identifiquei com a personagem… Muito bom seu conto!

  8. Obrigada, Lúcia!! Que bom que gostou… Beijão!

  9. ale disse:

    muito legal e claro e o que acontece muito com algumas pessoas no seu dia a dia, nao reparam ao seu redor o quanto podem mudar o dia de uma pessoa..adore..bjsss

  10. É verdade, Ale. Uma palavra pode fazer o mundo de alguém mudar. Beijão!

  11. Nilara disse:

    Adorei o Site… li sobre adstringente e depois acabei lendo ele inteirinho… super feminino e sincero

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