Conto: Coma

Eu sinto seu cheiro, sei exatamente quando você entra aqui no quarto. Permaneço inerte, olhos cerrados, sim, é verdade. Não significa que não estou aqui, que não estou te ouvindo, como você costuma repetir aos médicos e enfermeiras.

Eu te escuto, meu amor. Escuto cada palavra sua. Tento responder seus questionamentos, acalentar a sua angústia, reagir. Enquanto você imagina estar falando sozinha, eu vivencio um diálogo intenso e doloroso.

Não, meu bem, não chora. Me aterroriza ouvir o seu choramingo, parte meu coração. Suas lágrimas caindo sobre meu rosto incessantemente me desespera, dói. Eu sei que você não queria estar aqui, eu também não.

Você tem razão, não sei mais quando é dia ou anoitece, mas sei exatamente os dias e noites que passamos juntos. Rio por dentro, isolado em minha própria solidão.

Meus dias aqui têm sido cheios de lembranças e recordações. É a forma que encontrei de eternizar nossa felicidade, de esquecer o quão você tem sido triste ao meu lado, hoje.

Queria ouvir a voz das crianças, e entendo você não trazê-las aqui. São tantos tubos em mim, elas ficariam assustadas. Compreendo sua decisão, você sempre foi tão sensata. Me orgulho tanto de ter você ao meu lado.

Não sei há quanto tempo estou aqui, perdi a noção. A única coisa que sei é que não suporto mais ouvir a tua dor. Adoro esse seu perfume. Ando tão confuso das ideias. Imagino se não seria melhor ir embora para sempre. Ultimamente tenho pensado nisso com mais frequência. Nunca te percebi tão infeliz. Preciso acabar com isso…

Talvez seja melhor me entregar, talvez…

Tchau, amor.

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Sobre Alane Virgínia

Apaixonada por livros, letras, sons, imagens e pessoas. Advogada por vocação e jornalista nas horas vagas.
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4 respostas para Conto: Coma

  1. Gostei, tem um peso, uma densidade depressiva muito grande. Tive uma sensação de ser bem pra baixo e é eficiente nisso. Sufoca, com delicadeza, e é pra isso que o texto foi parido. Parabéns!

  2. Venancio, suas palavras têm um peso enorme. E um elogio seu é de deixar qualquer ser humano lisonjeado… Obrigada pelas palavras, pelo incentivo. Ainda é o começo de uma longa jornada, quero amadurecer no estilo e buscar melhorar. Obrigada mesmo por ter feito questão de vir aqui e dar sua opinião! Beijo grande!

  3. Davi B. disse:

    Deixar o outro seguir a vida, ser feliz longe de ti, é um dos atos maiores de amor. Um amigo meu diz isso, talvez esteja certo.

  4. É uma decisão tão difícil, não é, Davi? A gente sempre é tão egoísta… Foi isso que me motivou a escrever este conto… Beijão e obrigada por sempre comentar meus contos. Isso me deixa super feliz.

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