Conto: Despedida

Maristela estava à beira da morte, no leito de um hospital, presa em um complexo de fios e máquinas. A família, já desenganada, aguardava apenas o último suspiro da matriarca. Joaquim, marido há 50 anos, ia visitá-la diariamente.

No costumeiro horário, com a bengala em mãos, o andar manso e o rosto sereno, entrava no quarto da esposa e conversava sobre as notícias da TV, as novas travessuras dos netos e declarava seu amor. Despedia-se com um beijo na testa e voltava para casa.

Naquela manhã, Joaquim repetira sua rotina. Acordou cedo, banhou-se, escolheu a roupa mais elegante do armário, seguindo para mais uma visita. Desta vez, o assunto seria outro, embora a tranquilidade fosse a mesma. Sentado em uma cadeira estrategicamente posicionada ao lado da cama da amada, esforçou-se para se aproximar o máximo possível de seu ouvido. Com a voz baixa, quase sussurrando, disse que aquela seria a sua última visita, ele não voltaria mais ao hospital. Ficaria na casa dos dois, à espera dela.

O encontro foi mais rápido que o habitual. Despediu-se logo em seguida. Beijou-lhe a testa. Levantou com a dificuldade inerente à idade e tomou o rumo de volta a sua casa. Ao chegar, embora ainda sob o sol da tarde, colocou o pijama de seda no corpo. Joaquim se deitou e fechou os olhos para dormir. Não mais acordou. Ele não voltou mais ao hospital, como dito. Preferiu deixar o nosso mundo antes dela, para esperá-la lá, onde quer que ela vá.

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Sobre Alane Virgínia

Apaixonada por livros, letras, sons, imagens e pessoas. Advogada por vocação e jornalista nas horas vagas.
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5 respostas para Conto: Despedida

  1. Ai, amiga. Que lindo! Fiquei comovida…

  2. Obrigada, amiga!!!! Estou ensaiando meus primeiros contos. Fico muito feliz em ler sua opinião, e lisonjeada em ler um elogio. Beijão!!!

  3. È sem duvida uns dos contos mais lindos e comoventes que já tive o prazer em ler!

  4. Que bom ter este retorno, Lane. Obrigada. Beijos.

  5. bmf45 disse:

    Fazia algum tempo que eu não passava por aqui a ver os seus contos, Alane!
    Senti falta de ler e re-ler os textos tão envolventes. Em especial, este conto, que acabei de re-ler, me fez refletir sobre a vida. Já, o li, por diversas vezes e, a cada vez, parace que o sentimento e compreensão mudam, conforme o estado-de-espírito! Isso me enche de ânimo para escrever, igualmente! Não tenho o seu ‘talento’ para literatura; no entanto, o faço de forma bastante intuitiva, o que, pra mim, já é um passo a frente. Pretendo seguir adiante com tal hábito, pois, me faz um bem enorme.
    Desta forma, como voltei a fazê-lo, com mais freqüência, sugiro-te, mais uma vez, caso tenha um ‘tempinho’ (Rsrs!), que veja o meu blog.
    – O endereço: http:// http://www.observatorioinsano.wordpress.com (está reformulado)
    Preciso de sua opinião, para que eu tenha um “norte”!
    E, vê se volte a escrever coisas novas. Lhe tenho como forte referência, ok!?
    Grato!
    Beijos!
    Sou seu GRANDE admirador!
    Att.: Benê – SP

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