Ainda o estereótipo da mulher como presa fácil

*Texto e reflexões de Andreia Santana

Esse texto vai pular a fila e passar à frente da Carol de Camila Pitanga (preciso comentar essa personagem, gente, é ponto de honra!), porque a urgência do fato se sobrepõe e, como se diz no jargão jornalístico, o tema está na ordem do dia.

Recebi a dica de uma amiga, via G-Talk: “pra você que gosta de refletir sobre as representações da mulher”. Ela deu RT no Twitter, igualmente chocada com o conteúdo. Detalhe: o RT foi do Twitter de um amigo, para vocês verem que os homens de bom-senso também se sensibilizam com essas coisas. Trata-se de um post num dos blogs da NOVA On Line (Taça em Y). A revista, considero abertamente machista tanto na versão impressa quanto na virtual, mas, infelizmente, engana meia dúzia de incautas. Se você pensa que as dicas de “como enlouquecer seu gato na cama” ou “como conseguir ter mais orgasmos que suas amigas” te tornam super poderosa, lamento informar, companheira, a NOVA vende as velhas “amelinhas” de outrora, submissas, objetos de decoração e dispostas a tudo para “agradar” o macho alfa, competitivas e nada solidárias com outras mulheres, de uma forma que considero negativa e que não ajuda em nada a imagem coletiva que se faz do feminino. A diferença é que as novas “amelinhas” estão embaladas para presente em fashionismo fake. Mulheres de atitude, de verdade, passam longe da intenção editorial da revista, do contrário, não se justificaria um post desses, em pleno Carnaval.

O título sugestivo: “Como descolar um gringo no Carnaval”, já mostra por quais caminhos vai a minha análise. Felizmente, ao acessar a página novamente, vi que tiraram o conteúdo do ar, provavelmente porque repercutiu mal nas redes sociais (280 RTs no Topsy -Twitter Trackbacks) e a ira de outros blogueiros em portais grandes como o Uol, mas o título continua registrado, para provar que não foi delírio coletivo (acesse aqui). Além disso, na internet, já ficou provado, a palavra dita e publicada é igual a tatuagem, pode até apagar, mas a cicatriz fica (aqui a versão salva pelo São Google).

Fico exultante de felicidade quando vejo a twittosfera e a blogosfera descendo o sarrafo nesse tipo de conteúdo que em nada ajuda a diminuir os índices de desrespeito e violência contra a mulher e que fazem questão de nos rotular sempre pejorativamente e de preferência como presas fáceis da lascívia masculina. Inclusive, o tema da representação feminina, como lembrou minha amiga, é corriqueiro por aqui, porque me irrita profundamente ver que esse tipo de visão distorcida é vendida como “ideal feminino”.

Como assim dar conselhos para que as brasileiras solteiras na folia arranjem um gringo “com cara de perdido” para “chamar de seu” durante o Carnaval? Estamos no século XXI, mas essa tendência de achar que as mulheres abaixo da linha do Equador são todas lanchinho fácil remonta há pelo menos 200 anos. Quem me conhece sabe que sou fascinada por crônicas de viagem e que os cronistas do século XIX, entre eles membros da realeza como o arquiduque Maximiliano da Áustria, já incentivavam o turismo sexual ao descrever, embasbacado e com artes literárias, o efeito devastador nos seus nervos, que exerciam os ombros à mostra das “belas mulatas baianas”. O príncipe esteve em Salvador lá pelos idos de 1800 e escreveu um livro inteiro sobre suas impressões da visita, dedicando um capítulo à beleza e ao “sangue quente” das mulheres daqui.

O mínimo que o post da NOVA faz é aconselhar as moças dispostas a fisgar o gringo “a pegar um bronze e ficar da cor do pecado”. Movimento Negro Unificado, por favor, manifeste-se!

Que no século XIX se tivesse essa visão limitada de mundo e de respeito ao feminino – principalmente às mulheres negras – , eu entendo, embora não aceite, porque existe toda uma construção histórica milenar por trás dos aparentes elogios à sensualidade tropical. Entendo também  que o texto tenha sido escrito, naquela época, por um homem, da realeza, ou seja, não era qualquer homem, sabemos o que um europeu, branco e da nobreza, era capaz de fazer naqueles tempos. Agora, que nos dias de hoje, uma mulher se dê ao trabalho de montar um manual que ensina outras mulheres a “caçar” e vender-se como banana na feira para um estrangeiro no Carnaval me envergonha demais.

Esse é o arquiduque Maximilian, que pelo visto fez escola

Além disso, o texto é racista – tanto no que diz respeito a empurrar as “morenas” brasileiras para cima de “gringos” que, não todos, mas uma parte, chegam por aqui atrás  dessa promessa de Sangri-la do sexo; quanto racista e xenofóbico em relação à figura dos estrangeiros que visitam o país no verão e ao qual os órgãos de turismo nos dizem com todas as letras, o tempo todo, massivamente, para tratar bem. Tratar bem significa, inclusive, dormir com eles, coitados, tão carentes e sozinhos desse lado do oceano!

É xenofóbico pois reúne os visitantes num pacote único: “gringo otário que pode ser seduzido e explorado” nos dias de reinado de Momo. Cadê o respeito, não ao fato de serem visitantes que deixarão dólares (ou euros) na nossa economia, mas por serem estrangeiros que recebemos em casa e a quem, infelizmente, mostramos nosso pior lado, quando poderiamos aproveitar a oportunidade para desfazer equivocos que perduram há 200 anos! Mas que nada, Maximiliano da Áustria deixou sucessores (e sucessoras)…

Escrever, todo mundo pode escrever o que bem quer, até porque a liberdade de expressão existe para isso. Mas é temerário publicar qualquer coisa, mesmo que sob a desculpa do “estávamos apenas zoando ou tentando ser engraçadinhos no clima momesco”. Mais temerário ainda se torna quando o texto é publicado em site ou veículo impresso de grande repercussão, que forma opinião e que acaba moldando padrões de comportamento, como todo conteúdo de cultura faz. Da novela ao blog, sempre vai ter quem “leia” a mensagem e assuma aquilo como verdade absoluta, disseminando ideias que boa parte das vezes escondem (pre)conceitos absurdos. A ideia aqui não é exercer patrulha ideológica e nem bancar a moralista, porque abomino as duas coisas, mas apenas alertar para que se pense com calma antes de escrever e publicar coisas desse tipo.

Em nada ajuda a diminuir o desrespeito, violência, humilhações e estereótipos dos quais nós mulheres somos vítimas em potencial ou rotuladas diariamente. Ainda existe uma onda machista que se renova e disfarça em várias formas, perigosa e à espreita, pronta para nos engolir e levar de enxurrada tudo o que conquistamos até agora, após décadas de tentativa de conseguir sermos tratadas como seres humanos que merecem tanto respeito quanto qualquer outro, independente do sexo biológico, da orientação sexual, da cor da pele ou da conta bancária. Vamos acordar por favor e usar o poder da mídia – quanto o temos em nossas mãos – para disseminar uma cultura positiva de feminilidade e não para nos expor na prateleira como a mercadoria mais pitoresca do Carnaval brasileiro.

Era por isso que a Simone de Beauvoir dizia que ninguém nasce mulher, torna-se uma. Só que essa construção do feminino não pode ser de uma mulherzinha vendida em revistas e cartazes de cervejaria com a falsa promessa de liberdade sexual e ser dona do próprio nariz se quem dita as regras do jogo são os machinhos que ainda nos dividem em “para casar” e “para passar o tempo”, como o integrante do reality show da moda tanto alardeia.

Engana-se tremendamente quem pensa que bancando a femme fatale para “gringo” ver é que se conquista espaço e se afirma uma identidade de mulherão.  Mulher retada, na real, não é a que assume atitude masculina na caçada. O exercício pleno e livre da nossa sexualidade tão demonizada ao longo dos séculos não passa por esse caminho de degradação. Um recado para quem ainda compactua com esse tipo de ilusão: “acordem e pensem na frase da Simone – que tipo de mulher vocês querem se tornar?”

*Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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8 respostas para Ainda o estereótipo da mulher como presa fácil

  1. Fabiana disse:

    Andrea, maravilhosa reflexão às vésperas do carnaval. Aliás não há festa do ano mais propensa à construção de estereótiposl. O próprio imaginário do carnaval como manifestação de uma das características que nos formaria enquanto brasileir@s, a alegria, já é em si algo lamentável e passível de dúvidas. O estereótipo da mulher brasileira fogosa e conquistadora de gringo casa muito bem com esse imaginário da alegria a todo custo que a idéia de carnaval aqui tem tomado. Penso sempre, sempre que mulher ando me tornando… Parabéns pelo texto. Beijos

  2. Oi Fabiana, obrigada pelo comentário e você tem toda razão, a própria ideia de alegria incondicional do brasileiro precisa ser rediscutida, pq tb é tipo exportação e não condiz com a realidade que nos cerca no resto do ano. Beijos

  3. Manina, perfeito seu artigo.

  4. Obrigada, Helder 🙂

  5. Mabia Barros disse:

    Mais do que você disse, não tenho mesmo a acrescentar. Um belo texto, que repassarei aos amigos.

    Só digo que, como fui criada, confesso ter nojinho de gringo. Sempre lembro que em maioria são turistas sexuais e que não tomam banho. Não sei como essas moças perdidas conseguem se envolver com eles…

  6. Obrigada, Mabia 🙂 O turismo sexual é uma realidade cruel, mas poucas mulheres se dão conta disso, infelizmente!

  7. Wendel Machado disse:

    Você devia mudar esse link de conversa de menina para conversa de gente grande sabe? Pois é Andréia, tá feio hoje em dia viu? Cada vez mais eu percebo que as pessoas perderam totalmente a sua identidade, sua característica como ser único sabe, por que ser clone é mais fácil e não requer muito tempo, não é verdade? Eu sinceramente hoje se me separa-se, por mais triste que seja dizer isso mas não sei se me atreveria a procurar uma mulher, dentro de um mundo em que as pessoas estão cada vez mais contaminadas com essa linha de pensamento Tribalistas sabe “Sou de todo mundo e não sou de ninguém”. Acho que iria preferir virar um Tio brincando de Wii com os meus pequenos em casa, e preparndo eles para crescerem, sabe…Se você pensa assim hoje em dia você é frouxo, é antiquado, é careta (engraçado como a historia se repete não?). Hoje eu entendo porque os pais falam tanto para os filhos que no tempo deles era diferente, na verdade, hoje está diferente também, e as mudanças não são mais de décadas, mas de anos…Tá tudo ferrado, e as pessoas fogem dessa realidade enfiando-se debaixo das mesas em seus empreguinhos patéticos ou na frente da telinha vendo peladonas e peladões e dizendo, a mas tá tudo moderno hoje!!! Não só me sensibilizo como compartilho de sua opnião. Meu orkut é Wendel Machado, me adicione e vamos debater mais assuntos polêmicos como esse…que nos transtornam, pois é desse jeito que a gente mostra mudança e encontra apoio. Um Abraço.

  8. Oi Wendel,
    Obrigada pelo comentário e pelas sugestões. O blog tem outros artigos sobre feminilidade, identidade e etc. Mas tem tb assuntos mais leves, como moda e beleza. Conversa de Menina porque todas as mulheres são meninas também, mesmo quando abordam temas sérios (o título do blog é uma metáfora, um jogo de palavras. Falamos de temas sérios, mas sem perder a leveza. Falamos de temas leves, mas com responsabilidade.) O Conversa de Menina tem uma comunidade no Orkut e um perfil no Facebook, também estamos no Twitter. Abraços!

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