Sobre divórcio e “o luto” da separação

*Texto e reflexões de Andreia Santana

Há alguns meses devo aos leitores do blog um texto sobre a vivência do “luto” após o divórcio. Não vivi a experiência do fim de um casamento na pele, mas vivi finais de namoros longos, acompanhei a separação dos meus pais, de amigos próximos e de familiares, daí creio poder discutir o assunto com aquele distanciamento que às vezes falta a quem está no centro do problema. O interesse em falar no assunto não é gratuito. Semestre passado, numa das disciplinas que cursava como aluna especial do Mestrado em Cultura e Sociedade da UFBA, tomei contato com a obra do sociólogo inglês Anthony Giddens. No primeiro capítulo do seu livro Modernidade e Identidade (Jorge Zahar Editor), Giddens discute um estudo chamado Segundas Chances, das britânicas Judith Wallerstein e Sandra Blakeslee, justamente sobre o divórcio e as reorganizações famíliares e sociais da alta modernidade. Na ocasião, o assunto suscitou muito debate na minha sala de aula e a primeira coisa que pensei era que valeria a pena trazer esses conceitos para o blog. Mas, na correria diária, novos temas foram surgindo, novas atribuições, e o assunto ficou “na gaveta”.

Há algumas semanas, a vontade de retomar o tema voltou com grande força, principalmente após alguns dados que recebi via email, de conhecidos que sabiam do meu interesse em falar sobre luto e divórcio – dentro dessa perspectiva de Giddens, Wallerstein e Blakeslee no Conversa de Menina. Segundo os dados do IBGE repassados para mim, entre 1997 e 2008, houve um aumento de mais de 200% nos recasamentos entre as brasileiras na faixa dos 40 aos 45 anos. Ainda de acordo com o órgão, os percentuais mais elevados de recasamentos ocorreram entre homens divorciados que se casaram com solteiras.

Outros dados, desta vez do Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo, mostram que desde que entrou em vigor a lei 11.441/07, que permite fazer a separação, divórcio e inventários consensuais em cartórios, o número de casos desse tipo cresceu substancialmente no país: separações 24,9% e divórcios consensuais 33,9%. De acordo com o levantamento, o estado de São Paulo é a região do país que mais pratica as vantagens da nova lei. Em 2009, os cartórios paulistas realizaram um total de 39.069 escrituras de separações, divórcios e inventários, cerca de 20% mais do que em 2008 e 84% mais que em relação ao primeiro ano de vigência da lei  no resto do país.

Segundas Chances – Diante desses dados, fiquei pensando para além dos números frios do IBGE. Associar as estatísticas à Giddens ou ao estudo das pesquisadoras britânicas foi inevitável. Também recordei os casos próximos de separação de que fui testemunha, tanto os que terminaram de forma amigável quanto os traumáticos. Lembrei ainda do impacto e das discussões aqui mesmo no blog, suscitados  pelos posts sobre a Lei de Alienação (relembre todos aqui).

Segundo Giddens, o livro/estudo Segundas Chances, descreve o impacto da ruptura dos casamentos no indivíduo e na estrutura social. As pesquisadoras usaram 60 casais (incluindo os filhos) e analisaram um período de 10 anos.  A principal conclusão é que, embora seja uma crise nas vidas pessoais dos envolvidos, apresentando risco à sensação de bem-estar, por outro lado, o divórcio pode abrir possibilidades para o desenvolvimento da pessoa envolvida e perspectivas de felicidade futura. É inegável que para algumas pessoas, desmanchar uma união que traz sofrimento é um benefício. Vi casos de pessoas que literalmente renasceram após se afastarem de um parceiro (a) que “vampirizava” as energias.

Wallerstein e Blakeslee também concluem que é inegável que um casamento desfeito provoca luto, mesmo quando era uma união infeliz. O luto seria provocado primeiro pela sensação de perda das experiências compartilhadas, muitas prazerosas, e em segundo lugar, no caso das uniões que jã não íam bem, pela frustração do projeto a dois não ter dado certo e de se ter investido tempo e energia à toa na relação. Quem já terminou um namoro longo, por exemplo, não fica isento desse “luto”.

“Viver o luto”, de acordo com as pesquisadoras, é extremamente importante, pois seria o bálsamo que cicatrizaria o ressentimento pelo fim da união, impedindo que esse ressentimento se traduza em amargura. Sabemos que nem com todo mundo funciona assim e não são raros os casos em que a amargura se traduz nos sentimentos mesquinhos de vingança, como o próprio ato de alienação parental. Mas, as autoras de Segundas Chances defendem que o período de luto é justamente aquele que vai proporcionar o “descolamento” da identidade compartilhada de casal, e a retomada do “sentido de si próprio”. Os recasamentos apontados pelo IBGE demonstram que cada vez mais um número grande de pessoas, homens e mulheres, mesmo quando mais maduros, investem na retomada das suas vidas e na reconstrução de outras relações após o fim de uniões anteriores e da vivência do tempo de luto. Conhecemos essa fase como “fechado (a) para balanço”.

A questão chave é a retomada da autoconfiança. Principalmente porque quem vive um casamento longo tende a viver a vida do outro, ou a vida do casal, em detrimento de desejos e necessidades próprias, que eram prioridade no tempo de solteirice. Lógico que, embora manter o mínimo de individualidade seja necessário para a relação não cair no binômio “dominador-dominado”, quem entra numa relação estável está em busca é de projetos compartilhados.  A perda do sentido próprio do “eu” e a sua substituição pelo sentido compartilhado do “nós” é inevitável. O resgate do “eu” é lento e gradual com o fim da união.

Usando uma linguagem mais cotidiana, o primeiro passo seria viver a dor, depois exorcizá-la, daí juntar os caquinhos do abalo na autoestima e autoconfiança, reconstruir um “novo eu” e, com o tempo, partir para outra relação. Claro que isso não é fórmula matemática e nem todos os divórciados viverão a situação da mesma forma.

O fator filhos também pesa muito. Principalmente porque o estudo de Wallerstein e Blakeslee aponta que as crianças sempre esperam secretamente uma reaproximação do casal. E vai caber aos pais proporcionar que o “luto” dos filhos seja o menos traumático possível. Dar suporte emocional, não tentar usar as crianças como instrumento de barganha ou chantagem (alienação parental) e até introduzir a nova pessoa com que se relacionam na vida familiar de maneira madura e serena são algumas das medidas.

E é aí que entramos na seara das reorganizações familiares, com as crianças tendo pai e mãe (separados) e novos “pais” e “mães” (os companheiros recentes de seus pais). Negociação é a palavra de ordem, tanto para definir se os novos companheiros serão tratados pelos primeiros nomes, ou  como “tio fulano” e “tia fulana”, ou mesmo chamados de papai e mamãe, o que pessoalmente acredito ser meio forçado.

Negociar porém, pressupõe maturidade e “vontade política”. Com a ferida aberta ninguém é bom negociador e o mais sensato, na minha opinião, é deixar o tempo se encarregar de fazer seus curativos.

*Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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9 respostas para Sobre divórcio e “o luto” da separação

  1. Van disse:

    Sei o qto esse luto é fundamental e necessario , mas qdo o outro nao consegue sair desse luto e nao deixa o outro viver em paz. O que fazer. Obbrigada

  2. Edson Taciano disse:

    Procurava uma imagem de luto para meu perfil do Orkut e sem saber, quando fui fechar a página é que me dei conta do artigo, caiu como uma luva, estou há dois dias separado, pois eu quem decidi que não queria mais viver uma relação a dois devido a inumeras brigas em tão pouco tempo de casado, que é somente 10 meses, pois bem, estou a estes dois dias em misto de euforia pela liberdade e planos futuros para vida, mas quando olho minha casa vazia, tenho uma vontade enorme de reatar, pedir que volte, mas não faço por achar que o ciclo viciante de brigas iria ser retomado, tudo fica sem sentido, a casa fica maior, as motivações se perdem e o animo até para fazer coisas triviais como escovar os dentes são perdidos..
    Entendi bem o texto e vejo que passa exatamente o sentido que a vida do separado toma.

    Quero parabenizar pel texto e digo que me serviu de grande ajuda.

    Edson Tacino

  3. Oi Edson,
    Fico contente que o texto tenha ajudado. Abraços e boa sorte!

  4. Oi Van,
    O luto após uma separação é pessoal e cada um terá seu tempo para promover o que os especialistas do texto chamam de “descolamento da identidade compartilhada” e “reconstrução de uma individualidade”. Algumas pessoas lidam melhor que outras com o fim do casamento. Mas não podemos ser reféns dos sentimentos alheios, não é? Se o outro não consegue se libertar do casamento e com isso atrapalha nossa vida de seguir em frente, temos de chamar para uma conversa definitiva e fazê-lo entender que para nós aquele ciclo se fechou. Salvo nos casos de obsessão paranóica, em que a situação vira uma perseguição e que portanto precisará de interferência médica ou até policial (a depender do grau de ameaça), uma conversa franca é o caminho mais sensato para pessoas maduras decidirem o fim de um relacionamento. Boa sorte!

  5. isabel disse:

    Ola , eu tambem procurava uma imagem de luto , pra por no meu orkut , achei o site e realmente tambem foi importante pra mim , pois estou nesse luto ,so nao sabia que ele era tao importante. No meu caso eu o sinto ainda maior pq meu eis marido sempre foi muito distante da familia , eu vivi e criei meus filhos sozinha , e agora ele fez a cabeça do meu filho mnor , pra ir morar com ele no casamento atual. Imaginem como me sinto! Luto mesmo, sensacao de perda , solidao total . Mas espero que Deus me dirija como e o que fazer no momento certo , me impedindo de fazer besteiras. Gostaria que deixasse meu email aberto pra qm quiser me mandar alguma palavra. abraços atodos.

  6. João disse:

    Bom dia. Andreia, adorei a tua abordagem. Passei por um divórcio há pouco, a separação de fato já existia há 3 anos. O luto é inevitável mesmo e o quanto é importante a gente saber disso. Quando estava separado de fato e não procurava me informar, sofri muito por não saber disso. E para quem está passando por isso agora, o importante é dar tempo ao tempo, issso passa. Abraço.

  7. Oi Isabel,
    Imagino como você se sente, mas tenho certeza de que não irá fazer nenhuma besteira, tanto por seus filhos quanto por você mesma é preciso ter serenidade para esperar o turbilhão passar e as emoções se acalmarem. Com o tempo, numa conversa, você e seu ex-marido podem decidir o que é melhor para a reconstrução da vida de cada um. Você já tentou conversar com o seu caçula? Muitas vezes, pode ser uma necessidade dele passar um tempo com o pai, mas isso não significa que ele deixará de te amar como mãe. Desejo boa sorte e como você pediu, deixo aqui o seu email para quem quiser te enviar uma palavra de força: isabelteixeira1@hotmail.com Abs!

  8. Oi João, obrigada por compartilhar um pouco da sua história conosco. Um exemplo de alguém que superou a fase mais difícil de uma superação e seguiu em frente é sempre um estímulo para outras pessoas. Abraços e boa sorte :)

  9. Fernanda disse:

    Olá,
    Reencontrei um amor do passado e ele estava casado há 04 anos, um casamento já cheio de problemas, brigas, comodismo e sem filhos.
    Após alguns meses após o reencontro ele se separou, pensei que tudo seria mais fácil, que iríamos viver um grande amor, afinal fizemos muitos planos.
    Mas agora ele está confuso, deprimido, com medo de compromisso, sinto que qualquer reação minha ele compara com a outra, acredito que ele deve esta nesse processo de “Luto”.
    Tenho tanto medo dele não dar uma chance para a gente. Sinto-me insegura, angustiada e sem saber como agir com ele.

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